quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

MATADOR DE ALUGUEL COM LER (Completo)

MATADOR DE ALUGUEL COM LER (Lesão por Esforço Repetitivo)

A doutora Silvana iniciou mais um dia de trabalho no posto rural onde vinha atendendo há mais de dois anos. Além disso, como tinha uma especialização em animais peçonhentos, sempre era consultada por pesquisadores do Brasil e do exterior interessados em seus estudos relacionados a serpentes como jararacuçu e cascavéis. Acabara de etiquetar alguns frascos que iria mandar para o Instituto Vital Brasil, quando se sentou para pegar o prontuário do primeiro paciente daquele dia.
“Austregésilo de Athaíde Filho, idade 52, solteiro, profissão indefinida”.
Estranhou o nome, por considerá-lo literário demais para uma cidade sem biblioteca e com uma escola pública das mais deficitárias que tinha notícia.
Abriu a porta e pediu ao caboclo para entrar.
_ O que está sentindo, senhor Austregésilo?
_ Uma dor aqui no braço, fia.
Mostrou o cotovelo direito e indicou a parte lateral, onde corriam os tendões.
_ Parece uma tendinite.
Fez com que o homem fechasse a mão e a abrisse. Depois pediu que tentasse estirar o dedo médio, enquanto ela forçava para evitar.
_ Dói?
_ Dói, sim, fia.
_ É tendinite, mesmo. Aqui na ficha do senhor está “profissão indefinida”. Pode me dizer qual é a profissão do senhor?
O homem tinha roupas surradas e simples, mas sem remendos e sem parecer que se dedicava à lavoura.
_ Posso não, fia?
_ Eu preciso saber a que profissão o senhor se dedica, para saber que procedimentos tomar. Uma tendinite tem que ser tratada de acordo com as atividades do paciente. Entende?
_ Entendo, sim, doutora. Mas num posso dizer minha profissão.
_ O senhor é agricultor?
_ Não, sinhora.
_ Então me diz o que faz normalmente para ter provocado uma tendinite.
_ Num posso, não, senhora.
_ Escuta, seu Austregésilo. Não sei o porquê dessa insistência em me dizer a que se dedica. Mas pode confiar em mim. Nós médicos temos a obrigação de manter em sigilo as informações confidencias dos pacientes.
_ É perigoso prá sinhora saber minha profissão.
Silvana estava mais curiosa ainda e resolveu arriscar-se.
_ O senhor pode me contar que isso ficará apenas entre nós. Nem vou colocar na ficha.
_ Sei não...
_ Juro por tudo o que há de mais sagrado, seu Austregésilo. Eu nunca revelo os segredos de meus pacientes.
O homem virou a cabeça de um lado para o outro, resmungou, consultou seus botões e esfregou a imagem de nossa senhora Aparecida que levava numa correntinha no pescoço.
_ Dona, eu vou dizer, mas se a sinhora dissé prá polícia eu mato vossuncê.
_ Pode falar, criatura de Deus.
_ Eu sou matadô!
_ Co... Como?
_ Isso mesmo, dona. Sou matadô de aluguer.
Ela respirou profundamente para digerir a informação. Quando conseguiu dominar o medo resolveu aprofundar suas informações.
_ Senhor Austregésilo, o senhor mata tanta gente a ponto de disparar todos os dias?
_ Moça! Si eu matasse tanto assim já tava milionário.
_ Então treina muito?
_ Claro, moça. Todo dia eu treino. Mas as bala é caro, então fico só fingindo que atiro nas latinha e apertando o gatilho.
_ Entendo. Não é de se estranhar que tenha essa tendinite. O senhor já matou muita gente?
_ Mais ou menos. Num passa de cem.
A naturalidade com que deu essa informação foi tão desconcertante que Silvana acabou de relaxar.
_ Mulher, homem...?
_ Mais homi que muié. Não gosto de matá muié. Só quando é pricisu mesmo. Muié-dama então num mato mesmo.
_ Posso perguntar por quê?
_ Muié-dama tem a vida muito sofrida, moça. Quando mato alguma muié normalmente é por causa de ciúme do marido. Muié-dama num tem marido e também num tem que ser fiel a ninguém. Ah! Criança também num mato, não sinhora!
_ Até quantos anos o senhor acha que alguém é criança.
_ Doze, treze anos. Depois disso já sabe o que tá fazenu. Si bem que conheci um mininu de nove anos que parecia ter o diabo no corpo. Esse eu matei mesmo. Nem precisô de encomendar.
Silvana achou que já tinha escutado demais.
_ O senhor vai ter que deixar esse braço imobilizado uns quinze dias, enquanto toma anti-inflamatório.
_ Mais, moça... Acho que na semana que vem tenho um trabalhinho prá fazê. Além do mais tenho essa tremedeira na mão que às vezes me faz errar na primeira.
_ O senhor bebe?
_ Bebo não, moça.
_ Essa tremedeira pode ser um sintoma de Parkinson. Nós temos um tratamento experimental que eu posso passar pro senhor. Mas vai ter que me prometer usar sem ninguém saber. Assim eu guardo o segredo do senhor e o senhor guarda o meu. Fechado?
_ Fechado, moça. Si a sinhora promete que vou parar com essa tremedeira, minha boca vai ser um túmulo.
Silvana saiu da sala e foi até o cubículo onde guardava seus medicamentos e os venenos que recebia para enviar para análise. Pegou uma cartela de comprimidos e um frasco lacrado, contendo um líquido transparente. Do frasco retirou o adesivo e colou só a pontinha na borda da mesa e pegou uma seringa e agulha descartáveis antes de voltar para sua sala.
_ Senhor Austregésilo, na casa do senhor tem fogão à lenha?
_ Tem sim, moça.
_ O senhor vai me prometer utilizar esse medicamento e depois jogar a seringa e o frasco vazio no foto, prá que ninguém saiba que fui eu quem lhe deu o medicamento. Promete?
_ Prometo, moça.
_ Pois bem. Vou receitar pro senhor anti-inflamatório para a tendinite. Na próxima vez que o senhor for contratado prá fazer um “servicinho” o senhor, uma noite antes, vai tomar três comprimidos desse calmante _ entregou-lhe o sonífero que tinha pego de suas amostras – e aplicar todo o líquido deste frasco no ombro. O senhor dá conta de se aplicar uma injeção no ombro?
_ Claro que sim, moça. Sou cabra-macho!
_ Estou contando com isso. Mas não esqueça de tomar os três calmantes antes, que é pro senhor não sentir nenhuma dor quando o medicamento estiver fazendo efeito. Entendeu?
_ Entendi sim, sinhora.
_ Pois bem. Depois que o senhor aplicar todo este medicamento no ombro o senhor joga a seringa e a agulha no fogo e vai prá cama. No dia seguinte não vai ter nenhuma tremedeira para disparar. Está certo?
_ Tá certo.
_ Agora o senhor vai até a farmácia e compra este remédio prá tendinite _ assinou uma receita e entregou ao matador, que a dobrou e colocou no bolso.
_ Obrigado, moça.
_ De nada. Só lembrando que tanto o calmante quanto o ve... medicamento injetável só devem ser tomados caso o senhor seja contratado para matar alguém.
_ Certo.
_ E ninguém pode saber que fui eu quem lhe deu esses medicamentos.
_ Num si preocupe, moça. A sinhora tem um segredo meu. Eu tenho um segredo seu. Estamos quites.
O homem saiu e Silvana esboçou um sorriso triste e enigmático ao mesmo tempo. Depois voltou para a salinha de medicamentos, pegou o adesivo e o colocou em outro frasco com o mesmo líquido que entregara ao paciente. Nele se lia:
“Cuidado! VENENO DE JARARACUÇU!”
*******

Um comentário:

Rogerio Saback disse...

Interessante.
Quando será publicada a segunda parte?

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