sábado, 11 de novembro de 2017

RETRATO FALADO - CATHARINA SULEIMAN

AS ASAS E A RUIVA
Para: Catharina Suleiman

A maré ruiva se agiganta
Não deixa nada impune
Quem quiser que se faça imune
Ao mar vermelho que se agranda.

Pelos, peles, poros, penas...
Fato é que tudo se consuma
Tudo foge, aparece, se esfuma
Enquanto asas são asas apenas.

Mas asas, meu amigo, nunca são asas apenas!


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

RETRATO FALADO - DONA NINA

SIMPLESMENTE NINA

(Para dona Salvelina Martins Airozo)

Quer saber o que me ixtarra seu tanso?
É balico se fazendo de manso.
E se me agarrota a paciência
Mando tudo quanto é ciência
Pro tacho fundo do ranço.

Quer saber o que me intizica?
Babaovo de mamica.
Mas mofa a pomba na balaia
Quem de falatório me faz tocaia
E perde a vida com bobiça.

Meu querido, não me afronte,
Pois viço de guria tenho de monte.
Dijahoje fui na praia,
O mar arredou sua saia,
Reverenciando esta menina
Que será para sempre,
E simplesmente, NINA.


domingo, 24 de setembro de 2017

RETRATO FALADO - DANI CASAQUI

DANI-SE
(Para: Dani Casaqui – Manga-Rosa)

Menina danada!
Diz que dá, mas não dá nada!
O pau que dá em doido
Dá em doido, dá em doido, DÁ EM DOIDO!
A menina danada não dá nada!
Mas é um doce a menina danada.
Seu olhar é um doce;
Seu sorriso é um doce;
Qualquer gesto seu?
É um doce!
Mas mexe com ela, mexe!
Rapadura também é doce,
Mas, tal e qual a menina danada...
É mole? É nada!
Pinta o cabelo, chupa manga de lambuzar,
Bebe mel de cacau de empanturrar,
Pé no chão, cabeça nas nuvens, língua na boca,
Na sua, na tua, nenhuma.
Danada-menina-danada!
Daninha menina?
Que nada!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

RETRATO FALADO - TONY PEPPE

ORGASMICAMENTE PERFEITO

Há quem diga que sou nobre,
Que brinco de alegria ou de tristeza,
Que não diferencio rico de pobre,
E que não me guio pela simples beleza.

Tudo isso é verdade
E mais verdade ainda é minha audácia.
Detesto a burrice e a iniquidade
E sou contra toda falácia.

Me ligo em tudo que dá prazer,
Por isso minha vida é orgásmica,
Não venha você me dizer
Quem é a estrela midiática.
Não vou gastar meu sorriso só pra ver
Tanta gente fingindo ser simpática.

Danço, canto e rebolo, sim, meus queridos
E chamo de amor quem eu bem entender,
Por isso não se assuste se vierem aos gritos,
Muitos bradando “Tony é o poder!”

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

MARIA DE LURDES

CUNHADO (A) NÃO É PARENTE

Cunhado não é parente. Taí uma verdade que eu gosto sempre de repetir.
Entretanto um cunhado (a) acaba criando vínculos que muitas vezes vão além do parentesco. Ele (a) se relaciona com seu irmão (ã) diariamente e se seu vínculo com o irmão (ã) é forte, tende a criar uma relação intensa também com este não-parente. Logo virão os sobrinhos, os parentes dos não-parentes e toda uma fauna humana que pode ser deliciosamente sociável, ridiculamente agradável ou simplesmente insuportável.
Há casos mais delicados em que o cunhado (a) não-parente acaba se tornando até mais próximo que o seu cônjuge, formando aquilo que todos chamamos de “a família que escolhemos”. Nesta família cabem todos: parentes, amigos, cunhados, cunhadas e todos aqueles que merecem nosso carinho e respeito.
Há alguns dias perdi um destes não-parentes que faz parte da família que escolhi para mim.
A Maria de Lurdes não é só a mulher do meu irmão ou a mãe dos meus sobrinhos, nem apenas a avó dos meus sobrinhos-netos. Ela é uma luz que continuará brilhando em minha vida física e também em energia, quando eu coabitar a dimensão dos anjos ao seu lado. O brilho de seu olhar, a doçura de sua voz, a simpatia de seu sorriso e a honestidade de seus atos, seguirão povoando minhas memórias para sempre.
Não, Lurdes, você não partiu pura e simplesmente para outra dimensão. Hoje nós compartilhamos com os anjos a sua presença. Claro, eles estarão mais felizes, já que te têm em toda a plenitude. Nós, por enquanto, temos que nos contentar com as lembranças e com alguma fortuita visita em algum sonho, em um soprar de brisa, em um vislumbre da eternidade que agora rima com teu sorriso. Se neste momento, ouvirmos algum farfalhar de asas, algum riso tão infantil quanto verdadeiro, uma voz de alento, um simples suspirar de felicidade, saberemos que você continua a velar por nós, do mesmo modo que velamos tua memória.
Até sempre, amiga, e que os anjos te recebam de asas abertas!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

ANGELS

PRIMEIRO BEIJO ENTRE ALFREDO E NOAH

Alfredo suspirava aliviado, enquanto a bexiga se esvaziava lentamente. Havia uma caixa de som no banheiro e ele seguia a música, tentando cantar baixinho, sem entender o que a letra queria dizer. Sua noção do idioma inglês era demasiado básica para que pudesse compreender a mensagem transmitida pela canção:
I sit and wait
Does an angel contemplate my fate
And do they know
The places where we go
When we're grey and old
'Cause I have been told
That salvation lets their wings unfold
So when I'm lying in my bed
Thoughts running through my head
And I feel the love is dead
I'm loving angels instead

Alfredo não percebeu quando Noah se aproximou, repetindo a letra, baixinho. Pensou que sonhava quando a voz foi soprada diretamente em seu ouvido e a respiração do amigo aqueceu aquele recanto entre a orelha e o pescoço. Seu corpo se arrepiou quando parou de urinar, como se um anjo tivesse escaneado seu corpo – ou seria pelo hálito quente do arquiteto em sua pele? – Fechou os olhos, sonhou com os lábios de Noah e, quando sentiu os braços enlaçando-o por trás, entregou-se aos devaneios impossíveis. Deu a volta, sem ousar abrir os olhos, e entregou seus próprios lábios, como quem dedica uma parte de si para manter alguém que ama respirando.
A língua macia de Noah aventurou-se por entre os dentes de Alfredo, abrindo caminho, buscando saliva e espalhando prazer. Passaria ali o resto da noite se fosse preciso. Apertou o corpo do jovem estoquista contra o seu e sentiu o sexo do outro crescendo entre suas pernas. Abriu os olhos para mergulhar naquele abismo escuro e sedutor do olhar de Alfredo e finalmente conseguiu se afastar apenas o suficiente para sussurrar:
– Vamos embora daqui?


terça-feira, 27 de junho de 2017

PIJAMA

PIJAMA
(para Oscar – assim mesmo, sem sobrenome. Ele vai se reconhecer)

Na constelação de Órion
Já soou o alarme.
Nem precisa fazer alarde
Do que eu gostaria de fazer.
Não há lua cheia que encubra
Meu olhar de prazer.
Talvez apenas Alnitak, Alnilam ou Mintaka descubra
Aquilo que tenho reservado pra você.

No Equador Celeste
Órion é um par de corpos em conjunção.
Não preciso fazer alarde,
Não preciso me esconder.
Sabemos que cedo ou tarde
Alnitak, Alnilam e Mintaka
Me farão despir minha pele
Pra finalmente eu me vestir de você.

Você diz que está em minhas mãos,
Eu digo que estou nas tuas.
Que finalmente Alnitak, Alnilam e Mintaka
Revelem nossas peles nuas.

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