quarta-feira, 14 de junho de 2017

MUITOS TONS

MUITOS TONS

_ Só tenho meia hora!
Ela não se surpreendeu. Recebeu-me com o mesmo sorriso e me convidou a entrar.
_ Vamos fazer esta meia hora render! _ Contestou.
Seus olhos brilhavam com a expectativa de me subjugar e fazer com que me rendesse aos seus pés.
Fez-me deitar ali mesmo, na varanda, e estirar músculos e nervos, já antevendo que eu realmente sofreria em suas mãos nos trinta minutos seguintes.
A cada urro meu regozijava-se ela! A cada novo toque, nova sensação de pujança! A cada intervalo neste pega e afrouxa um momento de delírio e êxtase que não chegava a ser um “quero mais”, mas um “estou chegando ao meu fim” talvez.
Suávamos os dois. Eu, obviamente, muito mais que ela, pois, entre subidas e descidas, gemidos e gritos, me extenuava a cada nova estocada.
Ela não se dava por satisfeita. Parecia querer me ver acabado, sem forças para voltar para casa. Parecia desejar ardentemente que eu esgotasse ali, em sua varanda, toda a energia de que dispunha e não economizasse nada para o que viria depois.
Era perspicaz, inteligente e visceral. Quando via que eu esmorecia me incentivava com um "estamos quase lá" ou um "você hoje está foda".
A meia hora se esgotou e ainda não tínhamos chegado ao fim. Ela se estendeu propositalmente, eu sei, para aumentar meu sofrimento e minha agonia, ante a possibilidade de um anticlímax que poderia ser fatal para esta relação dominadora/dominado.
Quando finalmente acabamos fugi dali, com as pernas ainda bambas, os músculos latejando e o corpo todo entregue à débil agonia do dever cumprido.
Cheguei em casa prometendo a mim mesmo nunca mais falar para minha personal training que a aula de funcional, que normalmente faço em uma hora, deveria fazer em apenas trinta minutos.

Para minha teacher Maryel Boff


segunda-feira, 5 de junho de 2017

UM MENINO

UM MENINO

O menino olhou para o mundo e sorriu.
Não haveria no mundo, mundo mais lindo que o seu.
Seu mundo estava cheio de luz, bichos e flores.
Encontrou uma centopeia e disse a ela:
“Bom dia, centopeia!”
Ela seguiu seu caminho e ele continuou sorrindo,
Afinal, tinha desejado um bom dia a uma centopeia
E ela, continuando em seu caminho, com certeza,
Era a forma de dizer a ele:
“Bom dia, menino!”
Levantou uma folha e se surpreendeu.
Debaixo da folha se protegiam centenas de formiguinhas.
Devolveu a folha ao seu lugar com todo cuidado.
“Ninguém deve tirar o teto de ninguém”,
Pensou o menino.
Alegrou-se ainda mais o menino
Ao ver uma borboleta pousando aqui e acolá.
“Tão bela é a borboleta”,
Admirou-se o menino,
“E ainda é leve como o ar.”
Mal sabia o menino que, mais leve que a borboleta,
Era o seu pensamento,
Espelho dos olhos vivazes,
Que fazia com que seus sonhos fossem capazes
De para bem longe fazê-lo voar, voar, voar...

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