domingo, 14 de julho de 2019

OROBOROS

OROBOROS

Ahh... se o vento soubesse
Dos arrepios que ele provoca.
Ahh... se a noite entendesse
Dos mistérios que a escuridão evoca.

Se a luz iluminasse o próprio destelho,
Se a fome alimento gerasse.
Se a imagem se visse refletida no espelho,
Se tudo que é velho fosse o novo que nasce.

Se o homem não se sentisse tão sábio,
Se o ignorante se conhecesse, ao menos.
Se a palavra feia não encontrasse um lábio.
Se aqueles que se julgam grandes se soubessem tão pequenos.

Se, ante a mutabilidade do Universo,
A vida se descobrisse criança,
Perante um destino tão perverso,
A própria morte se reconheceria esperança.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

NINGUÉM NASCE HERÓI

NINGUÉM NASCE HERÓI

Conheci esta obra através do Davi Boaventura, quando ele fazia a leitura crítica de um livro meu, ainda inédito. Ao perceber semelhança de enredo, Davi me aconselhou a lê-lo.
A semelhança do tema realmente existe, um Brasil dominado por uma religião fundamentalista, governado por um presidente que representa o pior lado deste fundamentalismo religioso e onde impera a falta de respeito com as minorias, o racismo e a intolerância. Mas as semelhanças terminam aí.
Confesso que no começo fiquei meio perdido com as catarses criativas do personagem principal, um homossexual (como no meu livro ainda inédito) que ainda acredita em uma reviravolta política que possa devolver ao país a liberdade de expressão e outros direitos cassados pelo sistema governante.
Quando “embarquei” na história e soube separar o que era realidade (dentro do contexto) do que era criado pela imaginação do personagem, foi uma delícia de leitura. Eric Novello tem uma prosa envolvente e extremamente intimista. Cria um ambiente claustrofóbico e ao mesmo tempo carregado da esperança de um grupo de jovens inconformados com esta dificuldade de se locomover, de trabalhar, de amar e até mesmo de respirar em liberdade, sufocados pela atmosfera de culpa imposta pelo regime.
Algo que parece estar já sendo gerado neste Brasil intolerante pós eleição de 2018 e que temos que combater em sua raiz.
Fiquei doido pra ler mais coisas do autor. “Neon azul” já entrou para a lista de desejos urgentes.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

DIÁLOGO SOCRÁTICO

DIÁLOGO SOCRÁTICO

– Qual a importância da filosofia?
– Poucas coisas diferenciam o ser humano de um jumento. A filosofia é uma delas.
– Assim como a inteligência.
– Há muitos jumentos que se acham inteligentes.
– E a poesia?
– Mas a poesia é o mesmo que filosofia em versos, meu caro.
– A percepção da beleza.
– Sim. Isso é inerente ao ser humano. Perceber a beleza é captar a filosofia através dos olhos.
– Mas se tão poucas coisas nos diferenciam dos jumentos, qual o sentido da vida humana?
– Meu caro, esta é a questão filosófica de toda a humanidade. E pode ter a certeza de que nenhum jumento jamais parou para se perguntar isso.


quarta-feira, 13 de março de 2019

VALENTIM (MUNDO DE MIM)

VALENTIM (MUNDO DE MIM)

(Para Thaís, Leo e Valentim)

Montei no cavalo do mundo
E viajei pelas terras do sem-fim.
Flutuei nas águas do mar profundo
E mergulhei pra dentro de mim.

Voei, voei, voei porque sempre asas eu tive
Voei por sonhos nunca sonhados
Voei porque só voando é que se vive
Sobrevoei florestas, planícies e prados.

Conheci as rimas que levo no peito
Quero toda a poesia pulsando lá no fundo
Quero um mundo que para mim foi feito
Quero sonhar, voar, abraçar o mundo.

Quero cuidar desta Terra e amá-la
Que na minha presença não se faça nada ruim
E como sabe que vou respeitá-la
A mãe Natureza também cuidará de mim.


Faça-se a luz para mim!
Venho ao mundo gritando por paz
Faça amor, não faça a guerra!
Muito prazer, Mundo de Mim,
Se seu nome só pode ser Terra
Meu nome só pode ser Valentim!


quinta-feira, 7 de março de 2019

LUA DE MEL ATRASADA

LUA DE MEL ATRASADA

(PARA NAY E ALÊ)

A lua chegou atrasada
Enchendo de ouro o céu
Pintando o mar de prata
Trazendo a doçura do mel.

Saiu atrasada a lua
Cheia de dengo e de mel
Ela me encontrou nua
Dançando entre a praia e o céu.

Pintou de prata a sereia
Bordou de renda sua saia
Fecundou com ouro as estrelas
Iluminou a areia da praia.

Mas quem disse que a lua se atrasa?
Esqueceu que a lua é mulher?
Ela não chega na hora marcada
Ela chega na hora que quer!

domingo, 3 de março de 2019

DEUSES AMERICANOS

Não adianta: Neil Gaiman é um dos meus autores favoritos! E o que é este livro? Algo completamente inesperado e surpreendente. Se bem que, falar de livros do Neil Gaiman é falar sempre de histórias inesperadas e surpreendentes. Desde que li "Buenos Presagios" (li em espanhol. O título em português - Belas Maldições - não é tão interessante quanto o espanhol) fiquei fã incondicional.
Imaginei que "Deuses Americanos" fosse algo próximo ao universo Marvel, ou mesmo pegado à mitologia nórdica, mas é uma aventura espetacular e completamente verossímil dentro do Universo Gaimaniano. De propina ainda ganha um road-book por diversas regiões dos Estados Unidos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O BORBULHAR DO GÊNIO

A Bahia é pródiga de talentos em todos os ramos das artes. Isso é um fato conhecido por todos.
Soube da obra de Saulo Dourado durante a Flipelô de 2018, onde apresentava meu livro “A Namorada do Pequeno Príncipe, juntamente com o próprio Saulo e o excelente Breno Fernandes (que falava sobre “Mendax”, que ainda não li).
“O Borbulhar do Gênio” me pareceu que seria um relato falando mais sobre Ruy Barbosa, principalmente porque é este que está retratado na capa, mas logo me dei conta de que este “borbulhar” estava ligado à genialidade borbulhante desta Bahia que gera talentos desde seu nascedouro. O “borbulhar da genialidade” é condição inequívoca desta terra e, na época retratada no livro (meados do século XIX), era ainda mais evidente, pois a primeira capital do Brasil era celeiro de várias figuras de expressão nacional, entre elas os personagens do livro: Ruy Barbosa e Castro Alves.
Saulo nos faz submergir na história das duas figuras históricas, que conviveram e se admiraram mutuamente durante anos a fio. As lacunas desta história, desconhecidas pela falta de registros, são preenchidas pela imaginação do escritor de forma brilhante, tornando todo o relato verossímil, aproximando o livro de uma biografia romanceada com emoção e talento e abusando, também Saulo, da genialidade borbulhante desta Bahia maravilhosa.
“O Borbulhar do Gênio”, tenho certeza, pode ser inscrito entre as maiores obras de literatura produzidas no país nos últimos anos e Saulo Dourado é merecedor de figurar entre os grandes talentos não só da Bahia, mas de todo o Brasil.
Escrevo ainda sob o efeito da emoção de ter finalizado a leitura deste livro maravilhoso e espero que muitos também o leiam, valorizem a produção nacional e coloquem o livro e seu autor no lugar de destaque que merecem.
Obviamente esta não é uma crítica, já que não sou crítico literário. É uma declaração de amor mesmo! Amor pela literatura, pelos gênios retratados no livro e pela forma elegante, inteligente e inspirada com que Saulo Dourado nos introduz neste universo de inveja (mais por parte de Ruy Barbosa), devoção à poesia (mais por Castro Alves) e pelas letras em geral (de ambos).
Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, entre 1840 e pouco depois de 1870, fazem pano de fundo para esta obra que nos aproxima destes dois gênios e nos faz conhecer um pouco mais de suas vidas e obras.
Só me resta esperar novas obras deste autor que já está em minha galeria de preferidos com certeza!

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